Piero della Francesca

 

 

 Soneto Primeiro

 L. A. de Genaro

 

Da pintura o desenho é uma aurora

Que à figura ainda instaura seu primevo,

Linha, plasma de um triz da realidade,

Natureza visível da arte emersa.

 

Se absurdo é um contorno na paisagem,

Deixa-lhe ser desenho o extenso norte,

Que o querer a ordem traz aos seus lugares

Na intervalar medida um cinza ao drama.

 

A orla pondera e o dorso sente a luz

Como fosse interior, tangência incerta,

Um distante equilíbrio visto move;

 

E se ao matiz infiltra a forma própria,

Outro ancestral recorda ao branco sítio

Que satura de encanto a cor num cárdio.

 

 

Soneto Segundo

 L. A. de Genaro

 

A ampla visão melhor pergunta às frentes

Suas partes todas soantes num instante,

Ao tempo reduz quando lhe distende

O ângulo sem perder o agudo ao tosco.

 

Sob translúcido véu lançam-se os olhos

Em busca da nudez piramidal,

E levados por esse talho ao plano

Mais tingem-se na cólera da imagem.

 

Sua figurada e elíptica tragédia

Retira na secura o humor no todo,

Afronta-lhe aos contrários os matizes;

 

E o espectador, sentindo-os passageiros

Por entre as vistas mesmas conduzidas,

Inventa ao matinal terror, piedade.

 

 

Soneto Terceiro

 L. A. de Genaro

 

Par do Verbo a pintura é Seu flagelo,

Talho enquanto visão piramidal,

Que em verdade a fissura helicoidal

Trouxe-nos a fração da essência ao duelo.

 

 

Longe imprimem verdugos suas cadências

No corpo o diapasão da Sua sentença,

Feita ao quadrado e o jugo e o que se pensa

É interior à Paixão e às emergências.

 

 

Juiz desse inexato instante a sorte,

Na sensatez que em vão podem os fatos

Tirar do Rei o extrato sem que exorte;

 

 

Teve, cicuta à mão, seu próprio norte

Consumado o contrato com Pilatos,

À justa disfunção querer Sua morte.

 

 

 

 

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