O jogo de xadrez

 

 

Jogo de Xadrez

 

 Soneto Primeiro

L. A. de Genaro

 

Passam os jogadores de xadrez,

Dias e o tabuleiro se consumam

Aos amores sem vez, cores se espaçam,

Consomem o lugar central das peças.

 

Fica ao fluxo o complexo urdume em guerra,

E enquanto dura enfrenta a plena luz,

Devora que a vontade encerra o encanto,

Que a costura um costume a tudo inventa.

 

Sem nada mudar, tardes atravessam

Querendo ao jogo o próprio algo em jogo

Que as mentes cardiais versam sem parar;

 

Nem Peão, Bispo e Cavalo, Torre ou Dama,

Do sonho lhes detêm a solidão

Que ao peito crispa e emana um rito vago.

 

 

 Soneto Segundo

 L. A. de Genaro

 

Linha dos Peões, oitavos do ermitão

Que a puro instinto avançam à porfia,

E adversam, aldeões, cravos na amorfia

Enquanto os Bispos lançam-lhe atenção.

 

Frente primeira ao jogo o tempo instaura

Querendo o centro e as casas da abertura,

E ainda quer atar fogo à formosura

Nessas tábulas rasas de antiga aura.

 

Peão, modular medida entre a vontade

Que o ser por si procura o inteiro nada,

Vale oito e indaga à vida em claridade;

 

Gambito na clausura da bondade,

Sem volta na partida maculada,

Pois seu destino é dura gravidade.

 

 

 Soneto Terceiro

L. A. de Genaro

 

Querer do preto Rei sua alma em captura,

É a treva interior ter-se inaugurada,

Onde a verdade expira num retiro,

Quando alterca ao querer liberta espera.

 

Querer do marfim Rei o arguto rosto,

É ao corpo estar composta uma nudez,

Que oblíqua intrepidez à entrega ataca,

Que o entardecer à entranha altera e apura.

 

Querer do preto a branca elipse um Rei,

É antever na figura um tempo incerto,

O eixo de uma vontade imaginada;

 

Querer do branco ao preto sua catarse,

É estar sem quando o ator do cerne ao fim,

É um bem supremo a morte recordar.

 

 

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